De acordo matéria do Jornal O Popular, dois anos depois da prisão de Márcia Zaccarelli – acusada de matar uma filha recém-nascida e esconder o corpo por cinco anos no escaninho do apartamento – os restos mortais de Maria Eduarda continuam no Instituto Médico Legal (IML). Levada a júri popular nesta quarta-feira (1°), a acusada, que está respondendo em liberdade desde setembro de 2016, mudou a versão pela quarta vez e afirmou que escondeu o corpo para ter a filha perto de si. Apesar disso, não retornou ao IML para requerer a retirada e se assustou quando o promotor José Eduardo Veiga disse que a garotinha podia ter sido enterrada como indigente, conforme prevê a lei. Ela foi condenada a 18 anos e 8 meses de prisão pelos crimes de homicídio triplamente qualificado e omissão de cadáver.

De acordo com o IML, Márcia esteve lá apenas quando foi presa, em agosto de 2016, para exame padrão de corpo de delito. Para retirar a filha do local, a professora precisa entrar com ação judicial para solicitar o registro de nascimento e depois emitir a certidão de óbito. Como o caso foi de grande repercussão, a menina não foi enterrada e os restos continuam armazenados para o caso de a Justiça solicitar nova perícia ou até que a mãe tome alguma providência para o sepultamento.

O julgamento de Márcia foi realizado nesta quarta-feira pelo juiz da 3ª Vara dos Crimes Dolosos Contra a Vida e Tribunal do Júri da comarca de Goiânia, Jesseir Coelho de Alcântara e marcado por contradições. No total, cinco testemunhas foram ouvidas, incluindo a filha mais velha de Márcia, hoje com 14 anos; um agente da Polícia Civil, uma amiga de Márcia e o amigo que emprestou o dinheiro do parto. Enquanto a defesa da professora defendia a tese de infanticídio relacionado a uma depressão pós-parto, ela mesma afirmou, em depoimento, que a morte da filha foi um acidente. Zaccarelli afirmou que teria abraçado a filha com força para se defender do marido e não percebeu que ela teria parado de respirar.

“A defesa técnica estava empurrando um infanticídio e a ré voltou atrás apresentando uma teoria de homicídio culposo. O Ministério Público sustentou a denúncia de homicídio triplamente qualificado com ocultação de cadáver. A junta médica do Tribunal de Justiça atestou que ela não estava sob o efeito de psicose puerperal”, explica o promotor José Eduardo Veiga.

Aborto

Márcia era casada com Glaudson de Souza Costa e já tinha uma filha de outro relacionamento. Em 2010 ela teria se envolvido com um colega de trabalho. Segundo ela, o amante também seria casado e quando soube da gravidez pediu que ela fizesse um aborto. Glaudson tinha feito uma vasectomia e ao saber da gravidez também teria feito o mesmo pedido.

A menina, que segundo a mãe se chamaria Maria Eduarda nasceu no dia 15 de março de 2011 no Hospital São Domingos, no Setor Bueno. Quando sentiu as contrações ela teria ligado para Alex Delano, amigo e dono de uma corretora de imóveis onde ela e o amante trabalhavam, para pedir dinheiro emprestado. Ele a levou até o hospital e pagou por uma cesárea. Testemunha no julgamento desta quarta-feira, Alex afirmou que não tinha nenhum relacionamento com Márcia e que teria apenas emprestado o dinheiro.

“Ela me disse apenas que estava grávida e que o marido e os familiares não sabiam. Disse que tinha Unimed, mas que não podia utilizar o plano de saúde e me pediu o dinheiro emprestado. Depois que ela estava no quarto fui embora e desde então não tivemos contato”, completou Alex.

Márcia desmentiu a versão de Alex e disse que ele e o pai do bebê eram amigos e ambos sabiam da paternidade. “Alex era amigo de pescaria do pai dele e eu queria encontrá-lo. Quando senti as contrações e liguei, ele me disse: ‘achei que tinha resolvido isso’. O valor que ele pagou no hospital dava apenas para o parto e não incluía diária, então, uma atendente me avisou à noite que eu deveria sair pela manhã se não tivesse como pagar pelo dia seguinte”.

A informação foi desmentida pelo Hospital São Domingos ao POPULAR. De acordo com a direção da unidade de saúde, em casos de cesáreas as mães chegam a ficar dois dias internadas sem a necessidade de pagamento adicional.’

Versão contada à Polícia é negada

Em depoimento anterior, a professora já havia confessado o homicídio e contado em detalhes à polícia, a forma como havia matado a bebê. Inicialmente disse que, após sair da maternidade foi até uma praça, tapou o nariz da criança até que ela morresse por asfixia. Ela levou o corpo da filha para casa e, conforme relato próprio, a teria escondido no guarda-roupa do quarto por 20 dias antes de colocá-la em sacos plásticos e guardar em uma caixa no escaninho. Quando foi presa, Márcia negou envolvimento do marido no caso, mas nesta quarta-feira, apresentou novas informações.

“No dia 16, pela manhã, saí sem rumo e fui para uma praça perto da Avenida T-2, em frente a um supermercado. Estava começando a chover e eu liguei de novo para o Alex. Meu marido também estava ligando sem parar e acabei falando onde eu estava. Ele chegou, o Alex foi embora e nós começamos a brigar. Ele queria tomar a minha filha e eu a segurei forte contra o peito, mas não percebi que ela não estava respirando”, afirmou em depoimento.

Márcia disse que, depois desta briga foi embora com o marido e, chegando em casa foi que percebeu que a bebê estava morta. Contradizendo a própria defesa que sustentava a morte por asfixia e alegava depressão pós-parto, ela disse que tudo foi um acidente. Sem saber o que fazer, teria colocado a filha no guarda-roupa e, em seguida, no escaninho. “Eu deixava a minha filha mais velha dormindo no quarto dela e depois de dar boa noite, ia para o meu quarto e conversava com a bebê. A ideia do escaninho não foi minha, foi do meu marido. Eu não queria esconder ela, queria ter ela por perto. Eu ia ao escaninho todos os dias, ouvia ela me chamar, abraçava a caixa, rezava e pedia perdão”, afirmou.

Márcia afirma que marido a mantinha em prisão domiciliar

Em depoimento, Márcia afirmou que era ameaçada pelo marido e disse, inclusive, que já registrou uma denúncia na Delegacia da Mulher contra Glaudson. Durante a gravidez, ela afirma que ele a manteve em prisão domiciliar e proibiu o contato com familiares. Além disso, teria retirado dela o cartão da Unimed (da qual Márcia era dependente) e pedido que ela fizesse um aborto. O Ministério Público chegou a incluí-lo na lista de testemunhas desta quarta-feira, mas Glaudson de Souza Costa não foi encontrado para prestar o depoimento.

“Ele sabia do parto, sabia da caixa e manteve o segredo para que eu ficasse com ele. Não tive forças para sair desse relacionamento. Ele me batia, me obrigou a usar cinta para esconder a barriga e tinha medo do que as pessoas pensariam dele por eu ter um filho de outro homem. Ele só denunciou o caso à polícia porque estávamos nos separando e ele queria que eu abrisse mão da minha parte do apartamento. Eu fiz apenas uma consulta de pré-natal e não tinha dinheiro nem pra comprar o enxoval”, completou.

A filha de Márcia depôs, a pedido da própria defesa. Ela afirmou que a relação com a mãe sempre foi muito amável e afirmou que já chegou a apanhar do padrasto. “Ele bebia muito, me tratava com indiferença e batia na minha mãe. Eu percebia que ela estava engordando, mas ele dizia que minha mãe estava doente”, disse.